O MONSTRO

 

Dos treze aos quatorze anos, minha amada tia Belarmina tratou de me educar em muitas outras artes, auxiliares a adoração da Deusa, nossa mãe, a Terra, que tudo pode fazer gerar e frutificar, que tudo pode consumir e reviver.

 

Passava diariamente por uma maratona de professores, todos renomados, de notório saber no mundo cristão:

 

Monsenhor Aspíssia: Teólogo de Madri. Duro como um pau, vestido em suas batinas de detalhes carmesim. Devia ter idade centenária, eu imaginava, vivia com uma palmatória numa mão e a bíblia na outra. Mas era doce como um favo de mel: tinha alguma cera a vedá-lo, mas era incapaz de te ferir e recheado de doçura. Ensinou-me latim, grego, histórias bíblicas, filosofia e, evidente, crismou-me  e foi meu confessor. Também me ensinou Russo e outras línguas eslavas.

 

Senhora Ton-Ton: Que dizer dela? Ensinou-me francês e etiqueta, ensinou-me a organizar banquetes, escolher vinhos, dar ordens aos lacaios e aias, aos pajens e aos cavalariços, aos mordomos e aos estafetas, aos jardineiros e aos guardas do pátio, ao estalajadeiro e ao dispensador, em fim, ensinou-me a lidar com a gente invisível, as pessoas que nos servem e não devem ser notadas. Amávamos verdadeiramente essa gente e lhes retribuíamos a servidão com fartura. Isto provocava em alguns ódio.

 

Ensinou-me também a cozer, bordar, pintar um bocadinho e tudo mais que uma governanta deveria saber fazer, de tirar manchas de suor de cavalo dos culotes do amo a preparar um linimento para tirar lombrigas do rebento e herdeiro da casa.

 

Para saber mandar, ela dizia, devemos saber fazer melhor que nossos servos!

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 16h17
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Maestro Slavasks: Um russo louco, emplastrado em gomalina, esticado como sua batuta. Ensinou-me a tocar piano e violino. Este menos, claro. Ensinou também história da arte, geografia, história da humanidade e gramática, principalmente alemã, e a língua inglesa.

 

Por fim, Luca: Capitão de cavalaria, usava um uniforme de ussardo imperial. Tinha uma perna dura, uma mão seca e um olho tapado por um pedaço de couro atado a um barbante. Era um finíssimo adereço, mas insuficiente para compensar a grotesca figura que transparecia naquela face mutilada.

 

Ensinou-me o capitão matemática, álgebra, aritmética, lógica e ciências naturais.

 

Já comandara uma companhia de artilheiros da Baviera, numa ocasião, quando demonstrou grande aptidão para acertar alvos distantes, fazendo cálculos balísticos perfeitos. Era um homem de exatas.

 

Contava-me suas aventuras em diferentes guerras, os países que conhecera. Admirava-o, apesar da repulsa que seu aspecto me causava. E dentre todos, era o único pouco mais velho que eu. Éramos os dois os únicos jovens da casa. Fazíamos confidências, pelos cantos.

 

Tia Belarmina continuou a ministrar as lições sobre o culto à Deusa e  a escolha que devemos fazer, a quem nos entregarmos, para deleite ou frutificação para a mãe Terra. Munida de meu bastonete de alabastro, fui aprendendo as diversas técnicas para o conhecimento de nossas entranhas e sua glorificação, em êxtase, para a Deusa, fazendo fluir por nosso corpo todos os líquidos e humores vitais que nos vivificam e fazem férteis.

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 16h15
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Seus conselhos, quanto mais Luca me encantava, mais me exasperavam: como poderia justificar perante tia Belarmina minha atração por aquele ser tão repulsivo?

 

De noite, depois de me escovar e banhar, no momento reservado para minha série de exercícios com o frio alabastro, tentava expulsar esses pensamentos tentadores imaginando o que se ocultaria por detrás daquele tapa-olho de couro: Uma cova, vermelha e purulenta? Ou uma cicatriz grotesca, como que grudando as pálpebras, todas deformadas? Seria um olho opaco, azulado e crocante, inerme e dependurado?

 

Nem assim sua figura galante, porém aterradora, se afastava de minhas fantasias. Deitei-me preocupada, infeliz: No dia seguinte completaria meu décimo quarto aniversário e tia Belarmina prometera uma pequena comemoração, em que me apresentaria no piano e seria sabatinada por todos meus mestres, inclusive ele.

 

No lugar de me preparar, só pensava nele, no monstro encantado de um olho só!

FIM

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 16h14
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