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Reminiscências Libérrimas de Flirtácia von Liliputi

O BAILE DE MÁSCARAS

 

No dia de meu aniversário de quatorze anos, acordei aturdida: Que me esperava nessa festiva data? Antes que pudesse por em ordem meus pensamentos, tia Belarmina invadiu meu quarto, abraçou-me efusivamente e me beijou. Choramos juntas, sem saber o porquê.

 

Trazia-me uma bandeja de café da manhã riquíssima, serviu-me. Tomamos leite com café, bolachas, bolo e rimos muito. Depois tia Belarmina chamou com a sineta a aia, que apareceu com precioso vestido, que deveria usar durante o baile.

 

- Baile? – perguntei, muito nervosa.

 

- Sim, minha querida, faremos um baile de máscaras em sua homenagem, para que pratique este tipo de evento, tão comum em nosso país e em todas as cortes requintadas da Europa e mesmo do mundo pagão.

       

- Nada de sabatinas e provas?

 

- Nada disso, querida sobrinha, apenas o baile. Todos teus professores foram convidados e o Imperador, ele mesmo, enviará um representante para atestar teus progressos nos ensinamentos da Deusa!

 

Passei a manhã e a tarde me preparando para o baile. Ao entardecer, eu já vestida, encantadora e sedutora no rico vestido que minha tia encomendara, observei pela janela que nuvens negras se acumulavam no horizonte.

 

- Que ótimo – disse tia belarmina – é de bom agouro a chuva na data de aniversário: simboliza fartura!

 

- É sim... – disse a aia, pouco convicta.

 

Com efeito, antes das dez horas da noite uma tempestade absurda despencou, transformando as estradas em lodaçais intransponíveis onde as rodas das carruagens se prendiam e patinavam.

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 17h04
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- Não te preocupes, querida Flirtácia, todos chegarão a tempo de nossa pequena farsa, nosso baile secreto em que a flor que a Deusa espera ver florescer dará seus primeiros sinais de maturidade, exalando um perfume que só os mais apropriados poderão inalar de seu interior fecundo e belo.

 

- É sim... – repetiu a aia para minha tia.

 

O primeiro a chegar foi o embaixador e arauto do Imperador. Era um alferes da guarda imperial, encouraçado e já com sua máscara, que os convidados recebiam ao entrar em nosso palacete, aleatoriamente de um baú. Sua máscara era de um dragão, o que combinava com seu posto na hierarquia militar.

 

Marchando em compasso, apresentou suas credencias para minha tia, sentada mo centro do salão de baile, ao meu lado. Minha tia abriu a carta quebrando o sinete imperial com um martelete e fez um gesto displicente para indicar que aceitava sua visita e o reconhecia como representante imperial. Ele fez uma longa reverência para mim e se dirigiu em passos marciais para a porta do salão. Ficou plantado ali como um guardião da festividade.

 

Todos, desde os serviçais até minha tia e eu, estávamos mascarados, tendo pegado nossas máscaras pela sorte, no baú. A minha tia coube uma discreta máscara dourada, com um cabinho para segurar. A mim o destino escolheu uma borboleta com as asas vazadas, por onde eu espiava.

 

Os convidados chegavam e se cobriam com suas máscaras. Sabíamos quem eram todos, pelo porte ou pelo andar, mas o único que não aparecia era meu amado Luca, cujo andar manco, cuja mão seca e cujo tapa-olho seriam inconfundíveis.

 

Serviram o banquete sem que ele tivesse chegado.

 

- A chuva é muita! – disse tia Belarmina – mas logo ele chegará.

 

- É sim... – repetiu a aia, com sua máscara de cacatua.

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 17h03
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Findo o banquete, nada de Luca chegar, eu estava quase em prantos e, confesso, alterada pelo champanha que se tomava como se nascesse numa bica, ali no salão.

 

- É a hora do baile! – sentenciou tia Belarmina, entre um soluço e outro, estávamos todos um tanto alterados pela comida e bebida abundante.

 

Os serviçais apagaram os lustres e candelabros, deixando apenas as arandelas nas paredes alumiarem um arremedo de lusco fusco.

 

A orquestra iniciou uma valsa e eu, que esperava por Luca, fui conduzida por minha mestra e tia para o centro do salão:

 

- O representante imperial terá a honra da primeira valsa! – ela disse.

 

Eu esperava ter esse prazer com Luca, mas ele não dava o ar de sua graça hedionda. E parecia que todos não se davam conta disso. Senti-me tonta ao pegar na mão de meu par, um elegante homem de armas, como meu amado.

 

Dançamos levemente, rodopiando pelo salão. Todos nos imitaram, a música subiu em volume, as risadas também.

 

Abriram-se as portas laterais, que davam para o pátio, e os casais bailantes se dispersaram.

 

Meu par me conduziu para a fonte noroeste, onde costumava trocar confidências com Luca.

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 17h01
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Deixei-me cair sobre aquele peito másculo e comecei soluçar: era evidente que o Imperador escolhera aquele leal servo de armas para meu amante, como prêmio por algum ato de bravura em defesa de sua sagrada vida imperial...

 

- Flirtácia, meu amor! – ouvi estarrecida a voz de Luca!

 

Foi nesse momento que o encouraçado alferes da guarda real retirou sua máscara: por detrás da figura de dragão se encontrava o rosto brilhante de Luca, completo, com dois olhos de um verde profundo!

 

Não era cocho, não tinha a mão aleijada por uma bala.

 

- Mas que é isso? E tuas mazelas?  E teus aleijões?

 

As estrelas pareciam brilhar mais fortes, meus pés flutuavam sob a condução de Luca, esse Luca imaculado, sem horrendas deformidades.

 

- Não vê mazelas o coração que ama! Vez o que teu coração quer ver!

 

Imaginei que sonhava e sonhando desfaleci em seus braços. Depois estávamos em meu quarto onde tive minha primeira noite de amor. Uma noite inesquecível em que pude pôr em prática tudo que minha tia me ensinara, tudo que a Deusa professara em seus códices, tudo que meu corpo poderia sorver daquelas sementes que Luca depositou em mim inúmeras vezes, em arroubos místicos, fazendo tremer todos os músculos e tendões de nossos corpos.

 

Refestelados de delícias, dormimos abraçados. Antes de desmaiar, extenuada, pensava: Teria sonhado? Seria aquele Luca ou um impostor? Ou, pior: teria Luca me enganado por um ano inteiro, fazendo-se deformado e bufão?

 

Adormeci aguardando que a manhã revelasse que tudo fora um sonho ou pesadelo.

FIM

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 Escrito por Flirtácia von Liliputi às 17h00
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